Por: Geraldo Varjabedian

Se há algo que aprendi organicamente foi a pensar global e agir local. A velha lição da Agenda 21 que, mesmo estando ex-voluntário, aplico a todos os aspectos cotidianos…
O mapa do caminho está aí há muito tempo, mal utilizado, mal assimilado e refutado: “não deu certo porque dava muito trabalho, porque era complexo demais”.
A Agenda 21 não deu certo porque era inconveniente. Incompatível com o completo desconhecimento da pauta por toda institucionalidade que, na prática, está aparelhada pelos lobbies do capital desde sempre. E fez questão que não desse certo, assimilando apenas as gracinhas corporativas meladas de tinta verde…
Muita gente está escandalizada por aí que a COP 30 “não deu certo” porque os lobbies foram mais fortes.
Quando os lobbies foram mais fracos? Quem embarca numa luta dessa envergadura, sem considerar a correlação de forças?
Pensar global, agir local…
A correlação de forças é desigual em cada mínimo impacto socioambiental.
Qual é o enfrentamento que fazemos aos lobbies fósseis no nosso cotidiano?
Por exemplo…
Quem, na sua cidade, se coloca na ponta dos pés para apontar os aspectos fósseis da construção civil?
Quem é louco o suficiente para evidenciar o rastreamento dos modos de produção da indústria cimenteira?
Quem dá conta de considerar a especulação imobiliária como um lobby fóssil de ação permanente nos territórios?
Quem encara enfrentar as empreiteiras e sua visão tosca de urbanidade – movida a piche, ferro e concreto? Quem considera enfrentar as patifarias e o embromation ambiental da pretensa gestão de resíduos fósseis? Quem topa discutir uso ocupação de solo e modelos arquitetônicos e construtivos, para além do modelo imposto pelo capital redundantemente fóssil? Quem topa discutir modelo turístico baseado na dependência de estradas de asfalto/concreto com acesso prioritário de automóveis?
Abstraia os mesmos questionamentos para territórios impactados pela mineração, pelas madeireiras, pelo agronegócio, pela exploração de petróleo, pelos parques eólicos criminosos, pelas plantas industriais perversas…
Que tipo de transe mental é esse em que as pessoas só enxergam os lobbies quando veem logomarcas de megacorporações ou quando meia dúzia de descontentes acusa a presença de lobbies nos espaços institucionais?
Papinho reto, tá muito bonito ver retórica de mapa do caminho, liderança climática e outras degustações de pautas na área ambiental.
Mas quem pisa o barro da realidade sabe que esses temas não são discutidos nas escolas, associações de bairro, igrejas… Aliás, não são discutidos nem pela maioria dos partidos políticos em seus diretórios!
Só quem está no ativismo climático sabe da resistência dessa tal “militância de esquerda” a qualquer questionamento sobre mudança nos modos de produção, consumo e descarte; sobre abandono do uso de energias fósseis; debate em geral sobre a relação doentia que o desenvolvimento estabelece em relação ao meio ambiente… E as exceções que procurem salvação!
E por que citar a militância de esquerda?
Porque, se não há debate popular, se o debate dentro do universo de esquerda está viciado pela lógica de desenvolvimento do século XX, se o anti ambientalismo e o anti ativismo climático vigoram até nesse ambiente, a gente se pergunta: – Como fazer o enfrentamento ao poder econômico fóssil que impõe seus lobbies desde as narrativas mais primitivas nos jornalecos, rádios e redes sociais de bairro?
Como disputar esses temas nas câmaras de Vereadores, nas associações comerciais e demais territórios aparelhados pelo poder econômico?
Pensar global, agir local…
O mapa do caminho está pronto há muito tempo e quem é do rolê sabe quem – nas ações concretas, no térreo da realidade -, está a fim desse debate.
Parte da grana destinada aos processos de adaptação ao clima deveria nutrir os processos de educação ambiental popular.
Essa grana vem?
Se as grandiosas lideranças climáticas não descerão às bases, e nem a grana chegará, ativistas e educadores terão que continuar trabalhando em sua microescala, sempre contando com o velho e bom “nóis por nóis” e tentando pautar esses temas, independente do entendimento ideológico dos interlocutores…
Na sociedade do capital tudo é mercadoria, água, animais, florestas e gente.
É urgente a superação do sistema do capital, senão não chegamos a solução nenhuma.
No momento é essa a minha reflexão 🤝🌹